MENOS
é MAIS
Possivelmente
há muitas formas de o designar mas ainda na lógica dessa profunda e
urgente redução da escala de consumo há uma espécie de “slogan”
chave capaz de resumir de forma bastante certeira a ideia principal
inerente a esse movimento por assim dizer: o “Menos é Mais”
traduz de verdade a ideia chave daquilo que pode também ser referido
como uma espécie de movimento que busca num certo minimalismo e um
estilo de vida bastante diferente, ou até mesmo oposto àquilo que
tem sido a ideologia dominante nas décadas mais recentes de
“consumir desenfreadamente” … consumir quase como um desígnio
económico associado ao crescimento económico mas que, de facto, não
contempla praticamente nenhum dos impactos e consequências nefastas
associadas e a esse mesno processo de produção e de consumo.
Então
“menos” bens de consumo pode possibilitar paradoxalmente, ou não,
uma melhor qualidade de vida já que não “desperdiçamos” tanto
tempo, energia e recursos a acumular bens materiais e/ou serviços de
utilidade no mínimo duvidosa, de utilidade questionável. Em muitos
casos funcionam mais na verdade como um vício do que propriamente do
que corresponderem a uma necessidade objectiva e concreta.
Mais
uma vez a clássica dicotomia SER vs TER. Provavelmente se
despendermos menos tempo, energia e recursos focados simplesmente no
“TER”, no “COMPRAR” … provavelmente poderemos investir em
áreas certamente bem mais relevantes da nossa vida … como
simplesmente despender tempo de qualidade da nossa vida com aqueles
que amamos … a fazer coisas simples e que ironicamente numa grande
parte dos casos são … gratuitas … tais como brincar, jogar,
falar, cantar, passear, etc. Actividades transversais à própria
história da humanidade mas que têm vindo a ser substituídas,
especialmente nas décadas mais recentes e particularmente no período
correspondente ao “pós-guerra” (II Grande Guerra Mundial) pelo
entretenimento individualizado como por exemplo os vídeo-jogos, os
canais não generalistas, e netflix, etc.
A
ideia de que temos que estar sempre a “fazer” alguma coisa
assenta claro num conceito profundamente “produtivista” … da
produção (nomeadamente a produção constante e até crescente)
como um pilar ideológico da nossa organização social e económica.
Temos que estar sempre a produzir logo temos que estar também
constantemente a consumir … naquilo que constitui a ideia já
anteriormente mencionada do consumo como filosofia de vida. Como
prática normativa e até conduta ideológica.
O
“Menos é Mais” surge evidentemente em oposição a esta
filosofia ainda bastante dominante mas também cada vez mais
questionada. Ao mesmo tempo que evidencia a vários níveis ter
falhado naquilo que é supostamente o seu maior propósito: o de
gerar um bem-estar generalizado. Na verdade ela baseia-se num
pressuposto de constante insatisfação … numa satisfação
quimérica que deverá advir através do consumo mas que na verdade
só conduz a uma espiral de constante consumo e de constante
dependência em relação ao mesmo como elemento integrativo. No
essencial não é, nada mais, nada menos, do que uma dependência
semelhante a tantas outras .
O
“menos é mais” pode ser visto como uma estratégia válida de
eliminar ou pelo menos reduzir drasticamente essa dependência que se
tornou num elemento cultural fulcral nas últimas décadas …
Então
aquilo que poderia ser visto como um esforço por vezes quase
ascético gerador de infelicidade (na medida em que se transmite uma
ideia de sacrifício e privação) é provavelmente precisamente o
oposto: É um esforço que nos permite encontrar uma libertação
daquilo que é redundante e que constitui vezes sem conta em boa
verdade uma espécie de vício e dependência.
Claro
que é importante salientar que nos estamos a focar numa realidade
geográfica onde efectivamente existe essa constante hiperbolização,
por assim dizer, do processo de consumo. Nomeadamente naquilo que
normalmente se define como os países “desenvolvidos” ou,
essencialmente, os países ditos “ricos” do hemisfério norte. O
que não pode ou não deve contudo servir para sonegar o facto de
também nesses países existirem profundas e até violentas
desigualdades sociais. Apesar de poderem à primeira vista parecer
relativamente ténues se comparadas aos níveis de desigualdade
“sistémica” e de pobreza extrema da maior parte do hemisfério
sul.
De
qualquer forma é importante salientar que não está em causa
esperar que aqueles que já têm tão pouco tenham ainda menos. Mas
na verdade estes têm muito a ensinar no que diz respeito a saberem
viver tantas e tantas vezes relativamente bem com pouco … e a
conseguirem encontrar a felicidade em “coisas” e valores
provavelmente bem mais importantes do que possuir este ou aquele
objectivo, este ou aquele produto, desta ou daquela marca.
Sem
menosprezar contudo - é importante salientar bem - que existem em
muitos países, demasiados ainda, níveis obscenos de pobreza e
miséria... nesses casos o caminho deverá ser no sentido de prover
essas pessoas e sociedades de bens dos quais se encontram tantas
vezes privadas. Muitas vezes nem sequer porque não existe
efectivamente disponibilidade desses bens e produtos mas
fundamentalmente pelas profundas desigualdades, muitas vezes dentro
do próprio país, de acesso aos mesmos. São tipicamente países
onde existe uma minoria que chega até a viver em circunstâncias de
absurda opulência ao mesmo tempo que a grande maioria da população
vive numa situação que podemos mesmo definir como de segregação
económica pura e dura.
Nesse
caso menos, bem menos, para os que têm demais seria uma forma de
proporcionar aos que têm efectivamente menos muito mais. Porventura
o essencial para uma vida condigna. Mas claro, aí já nos estamos a
focar em mudanças que têm necessariamente que ser de ordem
sistémica. E leva-nos à questão de como mudar todo um sistema de
organização económica e social que tem sido vigente nas últimas
décadas? Bem, certamente não existe uma só solução e nem uma só
resposta mas creio que por exemplo o “menos é mais” pode
constituir uma alternativa válida e uma forma de criar um disrupção
importante com o sistema capitalista global. Pelo menos uma boa
filosofia no sentido de diminuir a dependência relativamente ao
mesmo e de evitar, de alguma forma, contribuir para a sua
perpetuação.