segunda-feira, 13 de março de 2023

Transitando2023 ou 108 Ideias fundamentais para um nova sociedade. Partilha 10, PERMACULTURA

 

PERMACULTURA

Um conceito ou, se quisermos, uma filosofia que surge profundamente associada ao conceito de Transição é o da “Permacultura”. A Permacultura acaba por constituir, efectivamente, uma das filosofias, técnicas, abordagens efectivamente mais revolucionárias aos mais diversos níveis. Podemos assumir, em certa medida, que parte também do conceito de “regeneração ecológica” já que o que nos propõe, quase sempre, é uma regeneração de habitates/paisagens humanizadas que por inúmeros factores se encontram regra geral degradadas, podemos até mesmo dizer “destruídas”.

Em termos práticos é algo complicado definir de forma muito precisa o que é exactamente a Permacultura, até porque ela é susceptíveis de inúmeras interpretações diferentes, mas podemos assumir como uma possível definição relativamente ampla esta retirada da Wikipedia:

A permacultura que significa “cultura permanente”, é um sistema de planeamento de ambientes humanos sustentáveis que utiliza práticas agrícolas e sociais cujo planeamento do seu design é centrado em simular ou utilizar diretamente os padrões e características observados em ecossistemas naturais e foi sistematizada para dar resposta à nova e crescente consciencialização da degradação ambiental global. A própria designação “permanente” foi concebida como a antítese dos modernos sistemas industriais, incluindo sistemas de produção de alimentos que, através da sua alta emergia, por exemplo pela dependência dos combustíveis fósseis e produtos químicos, foram se revelando instáveis, não-resilientes e poluentes (portanto insustentáveis) (1)

Apesar da “conveniência” desta definição também importa dizer, desde logo, que ela acaba por ser profundamente “redutora”. Ou seja, o próprio conceito e filosofia da Permacultura é a muitos níveis bastante mais complexo e amplo do que a definição nos transmite.

No fundo prende-se com a “projecção” de todo um ecossistema visando a optimização de esforços no sentido de assegurar a satisfação das necessidades mais importantes dos indivíduos que nele habitam, passando por áreas como a alimentação, a energia, a água e mesmo áreas de pendor que poderíamos definir como “mais subjectivo” como o bem estar psicológico e social.

Um dos principais objectivos é também o de não nos constituirmos como “invasores” num determinado ecossistema mas sim criar as condições ideais para que ele possa funcionar “por si só” e beneficiar não somente o ser humano mas todos os seres que compõem a cadeia de relações existente nesse mesmo ecossistema. Só por aí, podemos facilmente depreender que nos apresenta um paradigma absolutamente diferenciado do “convencional” em que a forma de nos colocarmos perante a Natureza é a do seu “dono” e da espécie que a pretende “dominar” e subjugar aos interesses (muitas vezes de forma ilusória) da espécie humana.

Então um dos pressupostos da Permacultura é o de que, antes mesmo de qualquer intervenção no ecossistema, a primeira e mais importante fase é a de observação do mesmo no sentido de compreender as relações e dinâmicas existentes … e só depois projectar as intervenções a efectuar tendo sempre por premissa básica a de criar o menor impacto possível. Claro que numa fase inicial esse impacto até poderá ser grande, como por exemplo na construção de um grande charco (que implica uma remoção em grande escala de terras e até a utilização de maquinaria algo pesada), mas sempre no pressuposto de que depois os benefícios para o próprio ecossistema serão em larga medida muito maiores do que os eventuais impactos negativos causados numa fase inicial.

Uma das outras características prende-se naturalmente com a lógica subjacente que é implícitamente uma lógica de longo prazo e de considerar que a dinâmica de (r)equilíbrio do designado ecossistema leva naturalmente o seu tempo. É um processo por assim dizer.

Para além de tudo o mais, ou antes de tudo o mais, também é muito importante levar em linha de consideração que é um processo em larga medida “experimental”, ou seja, muito mais do que implementar teorias completamente definidas e “acabadas” a Permacultura possuí um forte carácter experimentar por assim dizer, o que significa que há muitos aspectos que só se tornarão eventualmente mais claros com a própria experiência. Ou seja, é uma filosofia que implica de forma quase implícita uma enorme humildade face à realidade e um aceitar de tudo aquilo que não se sabe na prática ou ainda não se sabe na prática … porque uma realidade diferente pode, e normalmente implica, uma abordagem bastante diferenciada.

Outros dos aspectos mais importantes prende-se com o facto de ser uma abordagem que podemos definir como perfeitamente oposta a uma lógica extrativista por assim dizer. Então o objectivo não é o de “extraír” do ecossistema o máximo possível, levando vezes sem conta à sua exaustão mas, bem pelo contrário, o de o nutrir e “enriquecer”.

Ao nível da produção alimentar, por exemplo, esse horizonte poderá soar demasiado “utópico” ou “romântico”. É muito difícil por exemplo para um agricultor “convencional” acreditar que é possível produzir numa lógica a vários níveis quase “oposta” àquela que está habituado e lhe parece mais normal. A Permacultura não se cingindo somente à área agrícola oferece claro uma visão diferente. Inicialmente a produção de alimentos poderá tender a ser significativamente inferior à de num modelo convencional. Mas gradualmente ela tenderá a aumentar e, naquilo que constitui um dos aspectos mais interessantes desta filosofia, com o recurso a uma quantidade muito inferior de recursos. Na verdade a ideia será utilizar ao máximo os recursos que estão disponíveis o mais “localmente” possível ao invés de criar um modelo completamente dependente de recursos externos … muitas vezes, para não dizer quase sempre, com um custo ecológico e económico extremamente elevado.

Aliás, é algo perturbador observar como a próprio agricultura dita convencional acaba por ser tão insustentável a tantos e tantos níveis. É, por exemplo, extremamente dependente de uma constante injecção de fundos governamentais ou, no caso da União Europeia, fundos ditos comunitários. Dito de outra forma: é extremamente ineficaz do ponto de vista económico e também ecológico. Perceber que os gastos inerentes aos custos de produção são superiores à receita proveniente da venda daquilo que é produzido deveria soar, em boa verdade, como um paradoxo algo incompreensível. Para além disso, também é bastante perturbador observar que a quantidade de recursos que a agricultura industrial actual requer acaba por ser, em boa verdade, superior à quantidade de alimentos produzida. Ou seja, do ponto de vista ecológico é aquilo que podemos definir como profundamente “ineficiente”.

Essas ilações que no essencial consistem na mera constatação de diversos factos inequívocos deveriam ser motivo, por si só, para nos interrogarmos efectivamente sobre a lógica da agricultura industrial mas a verdade é que esse exercício está longe de ser efectuado com a urgência e importância que deveria.

Começam efectivamente a surgir algumas alternativas e diversos projectos que têm em vista conseguir produzir de uma forma muito mais eficiente, consciente e, também o podemos afirmar, ecológica. Mas ainda assim ainda constituem, por agora, excepções à regra.

De todas essas experiências, muitas das que se destacam na sua capacidade de demonstrar um paradigma profundamente diferente e diria melhor têm por base, efectivamente, a Permacultura. Apesar de ser importante salientar novamente que a Permacultura está longe, muito longe, de se cingir meramente à vertente por assim dizer “agrícola”.

Hoje em dia a Permacultura já se encontra muito mais difundida à escala global e é possível encontrar com relativa facilidade uma oferta muito interessante de cursos e formações na área. Do meu ponto de vista faria todo o sentido que a escala de partilha desses ensinamentos fosse ainda maior e a Permacultura fosse parte integrante dos programas escolares, integrada por exemplo numa disciplina de estudos ecológicos, direcionados para a interacção da espécie humana nos diversos habitats e na forma de trabalhar conscientemente o “meio” e a “paisagem”.

Por outro lado, muito para além de todas as nuances práticas, uma das principais virtudes da Permacultura consiste, no meu ponto de vista, na vertente filosófica da mesma. Não tenho grandes dúvidas, se é que tenho algumas sequer, no potencial “revolucionário” da Permacultura. E muitas “revoluções”, um pouco por todo o planeta, estão de resto já “à vista”.


    (1) Permacultura, Wikipedia, Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Permacultura, Publicado em (?). Acesso: 2022-12-29

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

WORKSHOP de MUDANÇA: RUMO à VIDA que SONHAS VIVER em 2023 e mais além!!!

 

WORKSHOP de MUDANÇA: RUMO à VIDA que SONHAS VIVER

em 2023 e mais além!!!

Macaréu - Associação Cultural, Porto


Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir.”

Sêneca.


Foi num ambiente muito descontraído e fraterno que decorreu este Workshop de Mudança – Rumo à vida que sonhas viver em 2023-

Foi uma noite muito produtiva e inspiradora para tod@s participantes e provavelmente “saíram” do Macaréu com uma nova perspectiva e talvez uma nova ferramenta para tornar 2023 (e quem sabe “mais além”) num ano de profundas realizações aos mais diversos níveis.

O nosso maior agradecimento à Macaréu por toda a sua hospitalidade e “cuidado” em assegurar que a actividade decorresse dentro das melhores condições possíveis. E muito obrigado aos participantes pela sua coragem e confiança no nosso trabalho.


O Workshop de Mudança – Rumo à vida que sonhas viver em 2023 consiste fundamental na aplicação de ferramenta “Matriz do Ser” desenvolvida no âmbito do Projecto PJP.ECOLUTION que de uma forma muito simples e objectiva te permite visualizar melhor as diferentes áreas da tua vida e para que aspectos poderás direccionar melhor o teu foco e trabalho de mudança.

Consiste fundamental na aplicação de ferramenta “Matriz do Ser” desenvolvida no âmbito do Projecto PJP.ECOLUTION que de uma forma muito simples e objectiva te permite visualizar melhor as diferentes áreas da tua vida e para que aspectos poderás direccionar melhor o teu foco e trabalho de mudança.

Creio que acabámos tantas e tantas vezes por estar tão imersos nos nossos hábitos e rotinas que até temos dificuldade, ou simplesmente não temos o hábito, de criar momentos de reflexão e observação da nossa própria realidade e das “múltiplas” realidades presentes na nossa vida.”


PJP.ECOLUTION

Pedro J. Pereira

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Desportos de Natureza? / 04-12-2022

Em princípio, é de saudar que mais e mais pessoas procurem de alguma forma o contacto com a Natureza e em concreto a prática de desportos chamados “de Natureza”.

E temos tantos caminhos, trilhos, recantos de enorme interesse e valor patrimonial, ecológico, cultural, etc.

Há alguns desportos que pelas suas características acabam por propiciar de forma mais directa esse contacto.

O BTT, o “Trailling” (não sei se é assim que se escreve ao certo), a Orientação, etc.

O grande senão, naquilo que para mim constitui um tremendo paradoxo, é ser confrontado com a falta de civismo e consciência ecológica daqueles que supostamente procuram a Natureza para dela usufruir.

Parece-me um tremendo paradoxo, para não dizer pior, que por exemplo quem procura a Natureza deixe resíduos nela.

Parece-me ainda mais paradoxal, para não dizer estúpido, a “modinha” das provas de BTT, e “trailling” em que “sinalizam” o percurso com fitinhas plásticas coloridas mas, terminada a prova, não há qualquer cuidado, inteligência ou simples bom-senso para as recolher.

Ou seja, disfrutaram da Natureza, fizeram a sua prova e no final como prémio para a Natureza deixam uma generosa oferenda de plástico.

Neste caso, nesta foto, deparei-me com estas fitas quando percorri um pouco do Trilho PR1 SMF - Rio Uíma - Caldas de S. Jorge, como o nome indica em Sta Maria da Feira.

Outro dado curioso é esta prova, seja ela qual tiver sido, ter contado com o apoio, talvez patrocínio, da própria Câmara Municipal de Sta Maria da Feira.

Não seria também do mais elementar cuidado que a própria autarquia exigisse à organização a remoção das fitas plásticas após a realização da prova? A mim parece óbvio que sim.

Enfim, infelizmente é um exemplo que está longe de ser uma excepção à regra e infelizmente aqueles que supostamente seriam em teoria mais sensíveis à protecção da Natureza são os primeiros a encabeçar a lista de “broncos” que atentam contra ela. Em Portugal então os índices de “literacia ambiental” são tão elevados como a inteligência destes pseudo-amantes da Natureza.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Transitando2022 ou 108 Ideias fundamentais para um nova sociedade: Partilha 9, ECOLOGIA das EPIDEMIAS, 2022-10


ECOLOGIA das EPIDEMIAS

As ditas epidemias são uma realidade paralela à própria história da civilização. Na verdade estão muito longe de constituir um fenómeno exclusivo só da espécie humana. Do ponto de vista ecológico e tão “duro” como possa soar a verdade é que funcionam também como um mecanismo de regulação das espécies. Ou seja, entre outros, constituem um mecanismo de controlo populacional quando uma determinada espécie ultrapassa o número de indivíduos ecológicamente sustentável ou simplesmente viável.

Ao longo da história tem sido na verdade um dos principais “mecanismos” de regulação populacional de origem, digamos, natural. Claro que existem outros … os próprios factores climáticos influem em larga medida quer de forma directa quer de forma indirecta por exemplo na forma como se repercutem na produção alimentar.

Existem também outros factores de origem humana como por exemplo as guerras.

Ao longo dos séculos com os avanços científicos, em particular na área da medicina, assim como devido à melhoria generalizada das condições de vida e higiene a magnitude e impacto das epidemias, pelo menos nos países ditos mais desenvolvidos, tem vindo a diminuir de forma bastante considerável.

Na verdade é precisamente nos países/locais onde as condições de vida/higiene são piores que se verificam ainda epidemias de proporções verdadeiramente dramáticas. Por vezes epidemias de doenças há já muito tempo erradicadas no chamado “1º mundo”.

Não obstante podemos afirmar de forma genérica que ao termos tido a capacidade de controlar a dimensão e impacto das epidemias suprimimos também uma mecanismo “natural” de regulação populacional.

Um dos aspectos que nos define como espécie é essa susceptibilidade de protegermos os “mais fracos”. Num processo de selecção natural os mais fortes prevalecem e os mais fracos são tendencialmente os primeiros a ser eliminados por exemplo numa situação de epidemia.

Dito isto podemos pois afirmar que faz parte da nossa consciência enquanto espécie zelarmos pelos “mais fracos”. Claro que em muitos contextos não é isso que acontece. No sistema capitalista global os mais fracos acabam muitas vezes, por exemplo, por ser segregados do ponto de vista social e económico. Mesmo que em muitos casos não seja uma “eliminação” física (por vezes acaba também por ser) é uma eliminação das condições e direitos mínimos de subsistência económica. Ou seja, o poder económico acaba por ser um mecanismo de selecção aplicado pelo sistema económico e cultural capitalista. Obviamente é um mecanismos completamente “deturpado” dado que não favorece exactamente o “mais forte” mas sim aquele que possui condições mais favoráveis.

Voltando à questão das epidemias “naturais” … evidentemente que está fora de questão optar por deixar as epidemias produzir o seu efeito “natural” … mas a grande questão que surge é então … que mecanismos persistem então de controlo populacional?

Bem … nas sociedades onde existem maiores níveis de educação e também maior qualidade de vida, mais bem-estar em termos de indicadores socio-económicos, as pessoas tendem a ter uma quantidade mais reduzida, limitada de filhos. Em geral é na verdade nas sociedades onde existe maior pobreza e também menores índices educativos que os casais tendem a ter e a querer ter maior número de filhos. Muitas vezes numa perspectiva dos filhos como “mão-de-obra” e sustento para a própria família.

Nessa perspectiva parece-me que a o foco principal deveria ser o de permitir e contribuir para que os países ditos sub-desenvolvidos possuam melhores condições para proporcionar um maior bem-estar aos seus cidadãos. Na prática vezes sem conta acontece o oposto... os países ditos “sub-desenvolvidos” encontram-se asfixiados por mecanismos de dependência e controlo económico relativamente aos países mais ricos. Muitas vezes uma parte muito substancial da riqueza gerada pela sua economia destina-se a pagar juros de dívidas cujos termos podem ser muito obscuros.

Em suma, não pretendo efectuar uma apologia a deixar as epidemias propagar-se como mecanismo de controlo populacional, natural e útil no sentido de estabelecer o equilíbrio dos sistemas ecológicos. É somente a questão/chamada de atenção para termos noção de que esse mecanismo é “relativamente natural”, daí tentarmos relativizar-lo um pouco e, por outro lado, ter presente que é importante desenvolver estratégias que possam contribuir para um equilíbrio populacional. Estratégias que e meu ver passam sem dúvida por mecanismos mais coerentes e desenvolvidos de solidariedade internacional … o que se torna especialmente complicado no actual contexto considerando que vivemos no sistema em que vivemos e onde os interesses instalados radicam o seu poder na exploração e até espoliação dos outros povos e nações. Daí que surjam também amiúde teorias algo horripilantes de apologia (como sendo algo de positivo) por exemplo às catástrofes naturais e a outros fenómenos (como as próprias epidemias) com impacto na redução da população.

Um aspecto que creio da maior importância no que diz à “Ecologia das Epidemias” prende-se, de uma forma mais global, com o nosso próprio estilo de vida. A verdade é que tendencialmente a industrialização e a concentração da população em grandes aglomerados populacionais, nas grandes cidades, tem-se traduzido também numa perda generalizada de qualidade de vida e em estilos de vida que se podem considerar menos saudáveis. Dessa forma pode-se dizer que se tem traduzido também, de uma forma geral, na criação de condições mais propícias ao surgimento de epidemias e ao impacto destas ser potencialmente maior. Creio que se há um padrão que pode ser claramente identificado é o de as epidemias atingirem predominantemente os grandes centros urbanos onde as condições de vida, desde logo por um menor contacto com o meio natural, são habitualmente piores. Por outro lado a realidade é que uma concentração elevada ou, se quisermos até, excessiva tende a contribuir para aumentar em larga medida as probabilidades de contágio.

Claro que este é um aspecto muito complexo porque também podemos discutir o conceito de cidade que temos ou não. A realidade é que o próprio conceito de cidade que temos pode ser profundamente alterado e acrescentaria … melhorado.

Melhorar por exemplo para um conceito com menor densidade de construção e um maior equilíbrio entre espaço impermeabilizado/artificializado e espaços verdes por exemplo … nomeadamente espaços produtivos como hortas urbanas.

As cidades podem (e devem) ser sem qualquer dúvida habitats mais “naturalizados”.



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quarta-feira, 11 de maio de 2022

"Transitando2022 ou 108 Ideias fundamentais para um nova sociedade”, Partilha 8, AUTO-PRODUÇÃO, 2022-05

 

Do meu ponto de vista, um aspecto que se encontra de alguma forma associado à questão da economia circular é o da auto-produção. Se é fundamental repensar em todo o processo produtivo nomeadamente em termos de inteligência na utilização e reaproveitamento de recursos, acrescentaria que é possível ir ainda mais longe e até diminuir os níveis de produção industrial. Um ponto crucial é efectivamente o da redução dos níveis de produção e consumo mas, para além disso, parece-me que é fundamental reduzir a dependência em relação ao sistema produtivo industrial. Dito por outras palavras … há toda uma infinidade de produtos/bens que podem ser produzidos de forma caseira … A aceleração dos processos de industrialização veio limitar fortemente esse género de práticas e conhecimentos de auto-produção. A auto-produção acabava por ser extremamente natural e comum. Fosse por razões de ordem geográfica (de algum isolamento), fosse por razões de ordem económica (pouco poder económico para aquisição de produtos de produção industrial por assim dizer) ou fosse até porque razões de ordem “natural” … na medida em que auto-produzir esses bens/produtos era simplesmente aquilo que seria mais natural … ou também porque simplesmente não existia ainda a produção industrial desses bens.

Claro que provavelmente será utópico conceber um retorno a essa realidade … no entanto em muitos casos estou convicto de que é possível recuperar, voltar a dinamizar e até apoiar esse género de dinâmicas de auto-produção desde logo ao nível daquilo que é mais elementar: a produção agrícola. Também é importante referir que principalmente as grandes empresas que controlam o aparelho produtivo tendem a ver essa auto-produção como uma ameaça ao seu poder: quanto menos as pessoas consumirem e necessitarem dos seus produtos menor será naturalmente o seu lucro … pelo que há que recorrer a todos os recursos possíveis para manter as pessoas dependentes das grandes empresas.

A nossa dependência face a esse aparelho produtivo industrial cresceu de uma forma incomensurável, ao ponto de hoje em dia já não nos sentirmos capacitados para produzir quase nada. Isso acaba por nos conduzir à questão da partilha: Quanto maior for a partilha desses conhecimentos e práticas auto-produtivas mais fácil será o acesso às mesmas assim como a adopção das mesmas… e quanto mais pessoas estiverem activamente envolvidas nesse processo maiores serão as possibilidades de sucesso dessas iniciativas, sobretudo pela vertente da experimentação e da dinâmica de troca de conhecimento(s).

Claro que isso também nos conduz à questão das “manualidades” … a verdade é que de uma forma geral o próprio sistema de ensino é também muito pouco orientado para o desenvolvimento desse género de conhecimentos manuais por assim dizer. Suponho que isso se prende com uma tendência para privilegiar o conhecimento dito científico ou académico convencional e muito pouco outros género de conhecimentos que a certos níveis poderíamos classificar como mais informais.

No entanto, o artesanato constituí naturalmente uma dimensão fundamental da nossa identidade e cultura pelo que deveria ser apoiado de forma mais determinada e efectiva.

Mas para além disso possui um valor prático que poderá colmatar falhas e limitações inerentes ao processo industrial … desde logo a escala de produção … isto porque ao nível de muitos produtos a verdade é que a produção é claramente excessiva...

Isto não significa que todos nos tornemos artesãos mas tão somente que talvez exista no actual contexto uma oportunidade muito importante de mudança aos mais variados níveis e esta poderá ser precisamente uma delas.

Na verdade, como já foi referido em diversos pontos anteriores, nomeadamente naqueles relativos à REVITALIZAÇÃO da “ECONOMIA REAL” e da REVITALIZAÇÃO do SECTOR PRIMÁRIO, tendo a acreditar que está a acontecer uma certa falência do processo industrial convencional … para além da excessiva “tercealização” da sociedade … pelo que há importantes ajustamentos que terão que acontecer a esse nível … e esse, o da absoluta urgência de voltar a ter efectivamente um sector primário forte e produtivo é um dos que me parecem mais inequívocos. Em especial se nos estivermos a referir à produção alimentar.

Mas ao referir-me a auto-produção nem estou tanto a referir-me necessariamente à revitalização de ofícios tradicionais mas até mais a muitas práticas e conhecimento possíveis de desenvolver a nível doméstico. Na verdade há já muitas pessoas que o fazem e a certos níveis pode-se quase falar até de uma espécie de “movimento” … Os exemplos são muitos e variados pelo que não tenho aqui a pretensão a proceder a uma listagem exaustiva dos mesmos … mas um dos mais relevantes é precisamente aquele que se prende com a criação e desenvolvimento de hortas urbanas.


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domingo, 20 de março de 2022

Equinócio de Primavera / 2022-03-20


A Primavera é a estação em que a Natureza volta a “despertar” após o longo período invernal. É a estação da exuberância da vida, das cores, dos cheiros.

É tempo de também nós deixarmos “brotar” o que de melhor existe em nós … expressarmos a nossa criatividade, poder, energia nas diversas áreas/dimensões da nossa vida. É um tempo especialmente propício para nos deixarmos guiar pela força e energia da Terra e também por escutarmos, observarmos e aprendermos com a sua sabedoria e essência ancestral.

É também mais uma vez a oportunidade de olharmos para nossas raízes para que possamos perceber quem somos, quem queremos ser e em que sentido queremos ir.

A nossa sociedade perdeu em larga medida a sabedoria do contacto com a Terra e deixou de seguir o ritmo e cadência divina das estações.

O desafio maior é o de recuperarmos esses conhecimentos e tradições.

Que possas florescer com vigor, naturalidade e beleza nesta Primavera!


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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

“COVID-19: A MELHOR CALAMIDADE que NOS PODERIA TER ACONTECIDO?” Partilha 7, BIOCENTRISMO, 2022-02

 

O principal objectivo do livro COVID-19: A MELHOR CALAMIDADE que NOS PODERIA TER ACONTECIDO? é o de “oferecer” o seu contributo para uma reflexão individual e colectiva que, acredito convictamente, poderia e deveria estar a ser efectuada.

A certos níveis creio que ela está já a acontecer mas a outros parece-me que existe uma pressão excessiva para que se tente simplesmente regressar “ao normal”, ou o mais próximo disso que conseguirmos, quase como se nada se tivesse passado … ou não houvesse nada a aprender e sobretudo … a mudar.

O livro está distribuído por áreas temáticas que têm por objectivo incidir sobre aspectos e questões que toda a situação da Pandemia do COVID-19 e crise subsequente poderá ter tido, eventualmente, o efeito de tornar ainda mais evidente. Uma reflexão fundamental no sentido de perceber potenciais linhas de mudança.

Se tiveres alguma sugestão ou ideia de alguma forma em que possas colaborar/ajudar na publicação deste projecto fico-te desde já muito grato. Abraços

Pedro Jorge Pereira

E aqui segue mais uma “partilha”:


COVID-19: A MELHOR CALAMIDADE que NOS PODERIA TER ACONTECIDO?”

Partilha 7, BIOCENTRISMO, 2022-02

 

BIOCENTRISMO

Intimamente associado a uma nova ética/paradigma encontra-se a forma como nós, enquanto espécie humana, olhamos para as outras espécies e para o próprio planeta no seu todo. Cingindo a análise particularmente ao chamado “Mundo Ocidental” … que de alguma forma tem vindo a liderar o processo de globalização … podemos afirmar com um grau elevado de segurança que a matriz dominante tem sido essencialmente antropocêntrica. Dito por outras palavras e seguindo um pensamento profundamente associado aos paradigmas religiosos dominantes, a espécie humana coloca-se a si mesma no centro da vida no Planeta Terra e assume possuir perante essa uma considerável superioridade ética e moral. Essa superioridade como que legitima a forma como esta se relaciona e explora as outras espécies … como as subjuga e submete a um inarrável grau de sofrimento e de exploração. E pode-se ainda afirmar que o faz de uma forma “industrial”. Ou seja, creio que não é arriscado afirmar que essa postura antropocêntrica é uma das principais razões que explicam o elevado grau de destruição dos ecossistemas naturais. Nesse aspecto creio que essa mesma cultura “ocidental” teria imenso a aprender com as chamadas culturas indígenas. É muito frequente quando observamos a forma de estar e ser dessas tribos confrontarmos-nos com uma postura filosófica completamente diferente, no sentido em que é muito mais frequente observamos uma matriz filosófica predominantemente biocêntrica e não antropocêntrico. A espécie humana mesmo que possua uma superioridade prática em relação às outras espécies, mesmo que exerça um certo nível de exploração, efectivamente coloca-se ou percepciona-se numa posição muito mais humilde e de muito maior respeito relativamente às outras espécies e ao ecossistema no seu todo. Tende a percepcionar-se como um filho da Mãe Natureza e não como o seu amo e senhor. Tende a percepcionar as outras espécies como que “irmãos” e em várias situações ocorrem por exemplo importantes rituais de agradecimento ao animal “irmão” que é abatido para alimentar os membros da tribo. Há também uma postura de muito maior humildade no sentido de não retirar de natureza mais do que o estritamente necessário. O que representa uma realidade completamente diferente da postura exacerbadamente “extractivista” no mundo industrial … em que praticamente não se concebem limites àquilo que se pode e deve retirar da Natureza … particularmente numa perspectiva de gerar um lucro constante e mais uma vez também numa óptica moral do “ser humano” estar aqui para controlar e dominar o planeta. Do ser humano ser superior a todas as outras espécies.

Na minha humilde opinião estou convicto de que dificilmente podemos esperar um mundo efectivamente diferente enquanto essa postura antropocêntrica de alguma forma prevalecer.

Podemos até acreditar que em função de todo a evolução tecnológica das últimas décadas a espécie humana se tornou dona e senhora do planeta … se tornou capaz de controlar toda a vida no planeta. Mesmo sendo inegável que vivemos possivelmente uma época sem precedentes … nomeadamente no que concerne à capacidade do ser humano em utilizar soluções tecnológicas para suplantar por exemplo os próprios limites e factores naturais … a verdade é que é uma ilusão acreditar que este transcendeu por completo esses limites … desde logo o da mortalidade. Podemos ter uma esperança média de vida em geral superior à dos nossos avós, bastante superior até mas … nem por isso deixarmos de viver numa condição eminentemente frágil face por exemplo à nossa própria mortalidade.

Para além disso quando observamos a magnitude de uma catástrofe natural … de um sismo, de um furacão, de um “tsunami”, da erupção de um vulcão … é verdade que devido aos avanços tecnológcos provavelmente o nível de destruição causado por qualquer uma dessas catástrofes tende a ser menor … mas nem por isso menos … catastrófico em muitos casos.

É ainda importante salientar que é muito subjectivo falar dos avanços tecnológicos da nossa civilização quando o acesso a essa mesma tecnologia é ainda tão díspar …

Há milhões de seres no nosso planeta que não têm acesso a bens, nomeadamente meios tecnológicos, que para nós parece do mais elementar direito.

A verdade é que imersos que estamos na nossa própria realidade, torna-se difícil projectarmos-nos de forma a conseguirmos compreender minimamente a realidade dos outros. E a verdade é que tantas e tantas vezes estamos longe, muito longe, de conseguir imaginar e projectarmos-nos no sentido de perceber sequer minimamente o que é estar no lugar desses seres.

Dito de outra forma, creio que não estou a proferir nenhuma heresia se afirmar que a muitos níveis no essencial somos verdadeiramente privilegiados.

E voltando à questão das catástrofes naturais e se calhar não tão “naturais”, se considerarmos que factores antropogénicos influem cada vez mais (nomeadamente no contexto das alterações climáticas), também a esse nível os impactos são muito diferentes e tão mais “catastróficos” quanto menores forem as condições operacionais e logísticas, tecnológicas também, desses países para responder a um cenário de crise. Para além das enormes disparidades que podem verificar-se e verificam-se efectivamente tantas e tantas vezes dentro de um mesmo país.

Então a verdade é que, em larga medida, continuamos a estar longe de conseguir controlar muitos factores e acontecimentos de ordem natural. Uma constação que poderia servir no mínimo para questionarmos a validade moral do pensamento antropocêntrico.

Talvez as coisas estejam efectivamente a mudar e comece a haver uma procura por parte de alguns indivíduos e pequenos grupos da nossa sociedade por uma matriz e particularmente por estilos de vida que no essencial estão muito mais alinhados com uma forma de ser e pensar biocêntrica do que propriamente com o pensamento/padrão antropocêntrico dominante … e parece-me que esse caminho é sem sombra de dúvida o que faz cada vez mais sentido.


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Sessão sobre Relacionamentos Amorosos Conscientes (Evento de Beneficiência), 6ªfeira, 09 de Fevereiro de 2024, 19h00

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